UM RETORNO A NOVA FRIBURGO DOS ANOS 40 Parte I

Que prodigioso computador é o cérebro humano. Armazena em sua memória, um ilimitado número de dados, informações, datas, acontecimentos, fatos passados, etc. Fica tudo ali registrado, ordenadamente e, quando queremos reviver alguma fase saudosa e longínqua da vida, basta um tempo de concentração, para que surja nítida a imagem desejada.
Eu, particularmente, gosto muito deste tipo de exercício mental e, volta e meia, revivo alguma década do passado século XX. Desta vez, entrarei no túnel do tempo, para reviver a minha infância, nos anos 40, na cidade de Nova Friburgo.
Você não quer fazer, comigo, esta viagem emocionante?
OS SONS E O MOVIMENTO DAS RUA
Os galos cantavam nos quintais, os gorjeios dos pássaros se faziam ouvir, a voz do “tempo-quente” se destacava, em meio ao afinado coro da passarada. Era a natureza anunciando o alvorecer de um novo dia.
O silêncio matinal era quebrado pelos apitos dos trens e das sirenes das várias indústrias. Operários apressados se dirigiam às Fábricas “Ypu”, “Arp”, “Haga”, “Villela” (“Sinimbu”), à de “Filó”, à de Azulejos São José”, à “Oficina Bizzotto” e a mais algumas.
Outras classes de trabalhadores, também, cruzavam as nossas ruas. Alguns calçavam tamancos de madeira que, em contato com o calçamento, produziam um ritmo
agradável e cadenciado, qual tamborins marcando o compasso de uma melodia. Os moradores colocavam, na calçada, suas latas de lixo, cujos conteúdos eram despejados, pelo lixeiro, na carroça puxada por um burrico e recolocadas no lugar.Pelo centro da cidade, onde circulavam charretes, bicicletas e poucos carros, o trem desfilava majestoso, tocando o sino, despertando a admiração de adultos e crianças.
A passagem dos LEITEIROS, a serviço da freguesia, era anunciada pelo chocalhar dos vasilhames de alumínio (de médio porte), dependurados nos guidões de suas velhas
bicicletas. Eram muito afreguesados João Batista Bucharel e Terenciano Bini.
O que mais se destacava, no entanto, era o mulato José Siqueira, o “Seu” Siqueira, pela singularidade na maneira de transportar o leite.
Ele empurrava um carrinho de mão, em feitio de tonel ou barril, no qual, havia uma torneira, que facilitava o controle da quantidade de líquido que se desejava comprar. Acionava uma buzina, anunciando a sua chegada. Os fregueses iam ao seu encontro com as suas vasilhas: leiteiras, garrafas, canecas, canecões. Ele usava uma bolsa de couro cru, a tiracolo, para guardar o dinheiro.
Outros vendedores iam, de rua em rua, apregoando as suas mercadorias:
Os VERDUREIROS que conduziam seus produtos, em carrinhos de mão, facilitando a vida das donas de casa, que não precisavam ir à quitanda.
Os TRIPEIROS que vendiam miúdos de boi e de porco, havendo, dentre eles, um que passava num burrico, transportando os ditos miúdos, em balaios.
Os PEIXEIROS que acondicionavam os peixes, em grandes cestos, tendo, como destaque, a figura de “Sebastião Peixeiro”, o popular “Virubicho”. Ele, aparentando estar sempre alcoolizado, oferecia o peixe por um preço muito elevado e, só após acalorada discussão com o freguês, ia abaixando o valor da mercadoria até chegar ao preço justo.
Os GARRAFEIROS que compravam garrafas e litros de vidro.
Os AMOLADORES DE FACAS eram os que passavam com menos frequência. Anunciavam a sua chegada com o ruído agudo, provocado pelo contato de algum objeto com a roda de esmeril, em movimento.
Tropas de burros e mulas com os balaios repletos de hortaliças, legumes e frutas, vindas do interior, chamavam a atenção, pelo som agradável produzido pelas sinetas penduradas, no pescoço da “madrinha da tropa”. Também, eram muito comuns, carros de várias juntas de bois. Não raro, em horas mortas, enquanto a população dormia, a boiada cortava a cidade e, no silêncio reinante, se destacavam os gritos graves, prolongados e disciplinadores dos peões, conduzindo os animais: “Eh, eh, eh boi! Eh, eh, eh boi!...

Comentários
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Nasci em 1967, mas mesmo assim fiz um a viagem e bela viagem diga-se de passagem,pela minha,nossa maravilhosa Nova Friburgo.
Nasci em 1967, mas mesmo assim fiz um a viagem e bela viagem diga-se de passagem,pela minha,nossa maravilhosa Nova Friburgo.
Que encantador relato demonstrando uma memória repleta de detalhes que demonstram, com erudição, aos mais novos como era a vida cotidiana de então. Parabéns.
Lembro das tropas que desciam a rua General Câmara, hoje Augusto Spinelli, com a madrinha tilintando na frente, trazendo hortaliças e muito carvão do interior para o depósito do Sr. Júlio Manhães. Esses burros depois ficavam estacionados na calçada de terra da Rua Monte Líbano, até a esquina com a praça, hoje Banco do Brasil.